Imprensa: "L ínguas indígenas. Uma riqueza que não pode desaparecer"

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Mon Aug 24 16:04:45 UTC 2009


A entrevista abaixo, com o lingüista Denny Moore (Museu Goeldi), foi
publicada no último dia 15 no site do Instituto Humanitas da Unisinos
(RS). Pode-se chegar ao endereço original da matéria através do
seguinte link:

 http://tr.im/unisinos

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15/8/2009

 Línguas indígenas. Uma riqueza que não pode desaparecer. Entrevista
especial com Dennis Albert Moore


Pesquisadores da FAPESP anunciaram, na última semana, que cerca de 180
línguas tradicionais dos povos indígenas podem desaparecer. Embora
conteste alguns dados desta pesquisa, o linguista estadunidense que
vive no Pará, Dennis Albert Moore, em entrevista à IHU On-Line,
aponta questões muito importantes que estão levando algumas línguas
tradicionais ao fim. A principal delas, segundo ele, é a falta de
linguistas no país, principalmente nos estados onde a presença dos
povos indígenas é maior. “Por exemplo, o estado do Amazonas tem
cinquenta línguas indígenas e somente dois linguistas com doutorado. É
óbvio que duas pessoas com tantas responsabilidades acumuladas não têm
condições de cuidar de cinquenta línguas. O grande problema,
principalmente na Amazônia, é que há poucas pessoas treinadas e a
infra-estrutura é mínima”, concluiu Dennis.

Doutor em Linguística e Antropologia Cultural pela Universidade de
Nova Iorque, Dennis Albert Moore é pesquisador do Museu Paraense
Emílio Goeldi, onde desenvolve os estudos Documentação de Cinco
Línguas Tupi Urgentemente Ameaçadas e Línguas de Rondônia. É também
consultor da Organização Indígena Panderej de Rondônia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Das 180 línguas tradicionais dos povos indígenas em uso
no Brasil, hoje, mais de 30 podem desaparecer em pouco tempo, segundo
pesquisadores da FAPESP. Quais são as principais línguas ameaçadas?

Dennis Albert Moore – Esses números não são muito precisos. O que se
quer dizer exatamente quando se fala em 180 línguas? Sabe o que
acontece com o português de Portugal e o português do Brasil? A mesma
coisa acontece com as línguas indígenas. A língua do povo indígena
Gavião, de Rondônia, é muito parecida com o dialeto do índio Toró,
também de Rondônia. É como o português de São Paulo e o português de
Belém do Pará, ou seja, muito pouco diferente. Então, se você conta
todas as línguas, são quase 180. Então, depende do que se quer dizer
com língua. Também não há um critério fixo e bem claro para dizer
quais as línguas que estão em extinção e quais não estão. Em longo
prazo, muitas línguas podem desaparecer.

IHU On-Line – E o qual o principal causador dessa possível extinção?

Dennis Albert Moore – O diagnóstico se faz na base da transmissão, ou
seja, ele se dá a partir do fato de que se está ou não aprendendo
aquela língua. Outra questão é que o número de falantes é mais
importante para se ter uma ideia melhor de como a transmissão de uma
língua está se dando.

Quando se fala uma determinada língua, há várias causas pelas quais
ela pode desaparecer. O contexto de seu uso, por exemplo, é uma dessas
causas, pois existem casamentos entre pessoas de grupos diferentes,
pessoas que viajam para fora da aldeia e índios que são criados na
cidade. Qualquer uma dessas situações pode fazer desaparecer o
contexto de uso de uma língua, uma vez que a transmissão tende a
diminuir.

IHU On-Line – O que tem levado os povos indígenas do Brasil a diminuir
a incidência de transmissão das suas línguas nativas para as novas
gerações?

Dennis Albert Moore – Vou citar aqui o caso concreto do povo indígena
Guaporé. A agência que cuidava dos assuntos indígenas estava tratando
de um problema que resultou em um grande número de mortalidade devido
a doenças. Os sobreviventes eram levados para hospitais e, então,
havia ambientes onde até sete línguas eram faladas. Assim, começavam a
falar português até em casa e excluíram a língua nativa.  Esta,
portanto, perde proporção através de contatos que não são bem
regulados, onde toda a cautela para proteger a língua por essas
pessoas não foi tomada. Por causa disso, por exemplo, e de muitos
outros motivos, as línguas estão sendo menos faladas pelas gerações
mais novas. Porém, há uma outra tendência de que as pessoas estão
querendo retomar o uso das suas línguas, pois têm interesse de
aprender mais sobre a própria cultura.

IHU On-Line – O senhor também concorda com a aplicação de uma política
linguística e científica?

Dennis Albert Moore – Sim, mas depende de qual é a política. Isto é
muito discutido. Tem um projeto da FUNAI que foi muito bem concebido.
O presidente da FUNAI, Márcio Meira, um antropólogo muito inteligente,
conseguiu um financiamento de aproximadamente quatro milhões de reais
para a proteção e revitalização de línguas, além de treinar indígenas
a trabalhar com a manutenção de suas línguas. Isso foi, para mim, uma
coisa muito esclarecida e progressista. Dificilmente, irá se achar no
mundo uma coisa tão bem pensada. Mesmo assim, essa iniciativa foi
criticada por alguns linguistas, infelizmente. Acho muito necessário
criar uma política linguística, mas há vários linguistas que estão
contra nossa história.

IHU On-Line - Como deveria ser a política linguística e científica
para que línguas nativas importantes não fossem extintas?

Dennis Albert Moore – O Brasil é um dos países mais progressistas em
termos de política linguística. Houve a iniciativa, em 2006, da Câmara
dos Deputados, sobre a possibilidade de criação de um livro de
registro de línguas. Nesse sentido, foi levantado um grupo de trabalho
de diversidade linguística do IPHAN, vendo as línguas como parte do
patrimônio cultural e material. O grupo de trabalho está planejando um
levantamento de campo da situação de todas as línguas do país. Isto
foi muito bem pensado pelo governo brasileiro e o primeiro passo foi
determinar qual é a situação, exatamente, do grau de transmissão das
línguas, quantas línguas, de fato, existem e quantas realmente são só
nomes de tribos. Com isso, é possível, inclusive, descobrir novas
línguas, pois estamos descobrindo várias todos os anos.

Este é um passo que muito importante dado pelo governo, mas temos que
ver se ele realmente será realizado. Novamente, havia alguns
linguistas querendo impedir o mapeamento, mas a posição do governo é
completamente coerente. Identificada a situação, é mais fácil fazer
planos concretos em termos de revitalização de línguas e em termos de
documentação. Também devem ser criados centros de documentação onde se
podem colocar as transmissões que tenham vida limitada, pois as fitas,
mesmo CDs e DVDs, com o tempo, vão se estragando.

Mundialmente, o que se faz é colocar as transmissões em forma digital,
depois passá-la para servidores, e, posteriormente, migrar para outros
meios tecnológicos. No entanto, é preciso manter esses materiais para
garantir que daqui a cinquenta anos, por exemplo, ainda teremos todas
essas transmissões. Na Amazônia, onde eu trabalho, precisamos de mais
linguistas. Estamos trabalhando aqui no museu para selecionar pessoas
que possam trabalhar com essa questão.

IHU On-Line – Como a possível extinção de línguas nativas pode
influenciar na cultura dos povos indígenas?

Dennis Albert Moore – Se você não falasse português, não seria a mesma
pessoa que é hoje. Por isso, os grupos indígenas estão interessados em
manter e documentar suas línguas nativas. A documentação, hoje em dia,
é fácil com os meios digitais. Tem gravador de áudio digital e gravam
no chip de memória; há gravador de vídeo, que também grava em HD.
Estamos aqui no museu recebendo muitos convites de grupos indígenas
para fazer treinamento sobre essas tecnologias, para que eles mesmos
possam fazer coleções de música tradicional, do conhecimento que
terão. É preciso aproveitar a tecnologia recente para retomar a
cultura dos povos originários.

IHU On-Line – Qual o principal desafio de documentar e preservar as
línguas nativas indígenas?

Dennis Albert Moore – É muito trabalho e pouca gente. Temos poucos
linguistas. Por exemplo, o estado do Amazonas tem cinquenta línguas
indígenas e somente dois linguistas com doutorado. É óbvio que duas
pessoas com tantas responsabilidades acumuladas não têm condições de
cuidar de cinquenta línguas. O grande problema, principalmente na
Amazônia, é que há poucas pessoas treinadas e a infra-estrutura é
mínima. Aqui no museu, temos uma boa infra-estrutura e estamos sempre
trabalhando para ter os documentos mais atualizados. Há muitas
vantagens por parte dos grupos, e a política dos estados, bem como a
do governo é muito favorável.  Se compararmos o Brasil com alguns
países, veremos que ele é muito mais progressista em termos de
manutenção de línguas do que outros que, geralmente, padronizam tudo e
eliminam as minorias. Acho que o que mais falta é recursos humanos e
tempo, já que tem tantas línguas e poucas pessoas que moram onde as
línguas são faladas e que estão em contato com os falantes.


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