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    <div id="ygrp-text">
            <p>Transcrevo abaixo matéria publicada há algum tempo no site da Agência Amazônia (<a href="http://www.agenciaamazonia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1529&Itemid=112">http://www.agenciaa<wbr>mazonia.com.<wbr>br/index.<wbr>php?option=<wbr>com_content&task=view&id=1529&Itemid=112
</a>). Entre outros fatos interessantes, a matéria menciona a importância dos dados do Arikapú (que conta com apenas dois falantes) para a confirmação da hipótese de inclusão da família lingüística Jabuti no tronco Macro-Jê (demonstrada recentemente em estudo comparativo desenvolvido por mim e Hein van der Voort).
<br><br>------------<wbr>---------<wbr>---------<wbr>---------<wbr>---- <br><br><font size="4"><b>Amazônia fala 120 línguas indígenas</b></font><br><br><i>Segundo o Museu Goeldi,  68% das línguas indígenas tinham pouco estudo ou nenhum trabalho científico.
</i><br><br>TIAGO ARAÚJO (*)<br><br><br>Quando se fala em extinção, relacionamos imediatamente esse termo com espécies de fauna e flora. Entretanto, pouco se sabe sobre outras "espécies" que também estão seriamente ameaçadas: as línguas indígenas.
<br><br>O Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), a mais antiga instituição de pesquisa da Amazônia, foi a pioneira no estudo de etnias indígenas na região. Esse trabalho transformou a instituição em uma referência mundial quando o assunto é lingüística indígena.
<br><br>Apesar das dificuldades em obter dados precisos sobre o número atual de línguas e falantes indígenas existentes, existem alguns levantamentos sobre a situação lingüística no País. Em um desses trabalhos, Denny Moore, pesquisador da área de lingüística da Coordenação de Ciências Humanas do MPEG, fez um levantamento da situação das línguas indígenas brasileiras em 2000. Os resultads indicam que há em torno de 154 línguas indígenas distintas (exceto dialetos da mesma língua ou nomes de entidades tribais) no Brasil, sendo que 120 são faladas na Amazônia. 
<br><br>Os dados obtidos mostraram que 68% das línguas indígenas tinham pouco estudo ou nenhum trabalho científico relacionado.  Isso mostra que existe muito trabalho lingüístico para ser feito — e rápido!  O mesmo levantamento identificou 36 das 154 línguas como em perigo de extinção imediata, por apresentar tanto um número de falantes reduzido quanto falta de transmissão à geração jovem. Dessas línguas, 33 são faladas na Amazônia.
<br><br>O desaparecimento de línguas indígenas é uma grande perda para as comunidades nativas. Afinal, elas são os meios de transmissão da cultura e pensamento tradicionais e uma parte importante da identidade étnica.  Todas as línguas têm valor científico, mesmo as que têm poucos falantes.  Por exemplo, com base em um estudo da língua Arikapú, com somente dois falantes, foi descoberto recentemente que a família lingüística Jabutí pertence ao chamado "tronco lingüístico Macro-Jê".
<br><br>O que isso significa? Quer dizer que este tronco importante se estendeu ao sul de Rondônia mais de 2.000 anos atrás, forçando uma revisão das idéias sobre a pré-história dos povos Macro-Jê.  Conclusão: o estudo de uma língua indígena é importantíssimo, sobre diversos aspectos.
<br><br><b>Como se preserva uma língua?</b><br><br>A maneira tradicional de descrever uma língua é elaborar uma gramática da mesma (fonética, fonologia, morfologia e sintaxe), um dicionário e uma coletânea de textos. Recentemente, foram desenvolvidos novos métodos de documentação das línguas, focalizados na gravação de amostras, digitalização e anotação das gravações e no seu uso para revitalização da língua.  Estas gravações e as suas anotações têm que ser guardadas permanentemente em arquivos lingüísticos, como o que está presente na Coordenação de Ciências Humanas do MPEG, com diversos arquivos de áudio e vídeo.
<br><br>Quais as chances de se manter ou revitalizar uma língua indígena? Quando uma língua possui pouquíssimos falantes, como a Xipáya no estado do Pará, que tem somente duas falantes idosas, é impossível imaginar que a comunidade volte a usar o idioma de seus ancestrais para se comunicar. Porém, mesmo nestes casos, uma documentação que preserve o conhecimento existente tem valor para a comunidade, como parte da sua herança cultural e identidade.   
<br><br>Quando há um número razoável de falantes de uma determinada língua indígena e vontade de transmiti-la às crianças da comunidade, podem ser colocados em prática diversos métodos de revitalização do idioma:<br><br>Ninho de Linguagem: crianças pequenas (que aprendem línguas sem esforço) passam tempo com os avôs, que falam somente a língua materna. 
<br><br>Mestre e Aprendiz: um falante assume a responsabilidade de ensinar a um jovem na língua. <br><br>Imersão: durante um certo período a comunidade ou uma parte da comunidade fala somente na língua e os não falantes têm que adquirir um mínimo da língua para participar.
<br><br>Alfabetização na Língua Materna: materiais escritos na língua geralmente aumentam o prestígio da mesma e chamam a atenção da geração mais jovem.<br><br>Gravações de Documentação: música, narrativas tradicionais e outros materiais podem ser gravados e devolvidos à comunidade para familiarizar os ouvintes, especialmente os jovens, com a língua e com as tradições.
<br><br><b>Sakurabiat, de Rondônia</b><br><br>Um exemplo de trabalho de revitalização de uma língua indígena foi o lançamento do livro Narrativas Tradicionais Sakurabiat Mayãp Ebõ, em 2006. Editado com o objetivo de registrar e ajudar a revitalizar a língua do povo indígena Sakurabiat, de Rondônia, o livro é uma rica coletânea bilíngüe multimídia.
<br><br>Com 276 páginas e um CD-Rom, reúne 25 histórias de cunho moral com as principais lendas mitológicas da etnia, além de dados lingüísticos e etnográficos do grupo, ilustrações feitas por crianças da aldeia e ainda imagens e trechos gravados das narrativas Sakurabiat.
<br><br>O trabalho é fruto de mais de uma década de estudos da pesquisadora do MPEG Ana Vilacy Galucio, através do programa de documentação científica das línguas amazônicas desenvolvido pelo Museu Goeldi. O trabalho motivou toda a comunidade Sakurabiat remanescente a valorizar novamente a língua e a cultura do grupo.
<br><br><b>Futuro da lingüística</b><br><br>Desenvolver lingüística indígena na Amazônia é um grande desafio. Tendo isso em vista, a partir década de 1980 o Museu Goeldi investiu em seu programa de lingüística.  O problema na época, que ainda persiste, é a falta de mão-de-obra: lingüistas bem qualificados que conseguem estudar línguas indígenas in loco na Amazônia.
<br><br>É uma tarefa complexa, que exige conhecimento de todas as sub-áreas da lingüística, além de habilidade de lidar com falantes indígenas e processar e analisar dados originais. A estratégia adotada foi selecionar alunos para receber treinamento em análise básica e métodos de campo e seguir para uma pós-graduação nos melhores centros nacionais e internacionais. 
<br><br>Até agora, 18 bolsistas do Goeldi entraram diretamente na pós-graduação em lingüística, dos quais 14 no exterior.  Desses, uma dúzia já se doutoraram. <br><br>Dos 17 especialistas funcionários de instituições amazônicas brasileiras que são analistas ativos com línguas indígenas e que têm um doutorado reconhecido, oito passaram pelo Museu Goeldi, que tem, então, um papel importante em termos de capacitação de lingüistas para a Amazônia.  Vários ex-bolsistas da Área de Lingüística do Museu Goeldi, junto com lingüistas afiliados ao MPEG para fazer pesquisas, fazem parte do grupo de pesquisa registrado no CNPq, Grupo de Estudos de Línguas Indígenas do Goeldi, o maior e mais qualificado grupo de pesquisa em línguas indígenas do País.
<br><br><br>(*) O jornalista trabalha na Agência Museu Goeldi. Colaboraram na reportagem: Ana Vilacy Galucio, Geiva Pianco e Denny Moore (CCH/MPEG).<br>
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