Imprensa: Sater�-Maw�, Mura e Cocama na Regional da SBPC

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Wed Oct 5 21:40:43 UTC 2005


Matéria publicada originalmente no JC e-mail (5/out/2005)
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Reunião Regional de Manaus: Sateré-Mawés fazem gramática na própria língua, Muras fortalecem escola e Cocamas descobrem identidade 

 

Índios realizam pesquisa pelo Programa Jovem Cientista Amazônida, da Fapeam

Flamínio Araripe escreve para o 'JC e-mail':



Já está na gráfica, para publicação, a primeira gramática na língua dos índios Sateré-Mawé, do Amazonas.

O texto – a primeira experiência de povo indígena que construiu a sua gramática - foi desenvolvido pelos índios em projeto de pesquisa apoiado pelo Programa Jovem Cientista Amazônida (JCA), da Fapeam, coordenado por Dulce do Carmo Franceschini, da Ufam.

A pesquisa foi realizada com quatro professores Jovem Cientista Indígena, 10 voluntários e seis alunos de Iniciação Científica Júnior.

Os Sataré-Mawé estudados por eles mesmos vivem em 50 aldeias do rio Andirá, com 3.800 pessoas; quatro aldeias do rio Waikurapá com 300 pessoas e 37 aldeias dos rios Marau, Urupadi e Majuri, com 3.300 pessoas.

De gravador na mão, os professores e estudantes índios gravaram relatos na sua língua Sateré-Mawé em aldeias dos municípios de Maués, Barreirinha e Parintins.

Os dados gravados com o resgate das histórias e tradições contadas pelos mais velhos estão sendo transcritos e deverão retornar às aldeias indígenas para uso nas escolas, informa a coordenadora.

Dulce Franceschini desde 1993 trabalha no projeto de pesquisa-ação desenvolvido com professores Sataré-Mawé. Segundo ela, a iniciativa serviu para o resgate de saberes tradicionais.

"A discussão sobre a língua desperta o interesse de conhecer palavras que muitos já não conhecem mais e que muitas vezes foram substituídas por empréstimos do Português", afirmou.

A pesquisa junto aos mais velhos foi realizada para redescobrir vocábulos e, através destes, conhecimentos já esquecidos na memória dos mais jovens, informou a coordenadora.

"Os participantes são instigados a todo momento a descobrir o universo cultural que se esconde atrás da língua e de sua organização", observa.

Da colaboração da pesquisadora com o trabalho dos Sataré-Mawé, já foram editados uma cartilha para alfabetização, um livro de leituras com exercício e dois livros de leitura - a história do Guaraná e a história da Noite. Mais oito livros estão prontos para editar, disse ela.

Segundo Dulce Franceschini, uma pesquisa realizada nos anos 3003-2004 revelou que o domínio da leitura escrita era de 53% na população Sataré-Mawé entre os 7 e 50 anos. "A gente vê que os indígenas são capazes de fazer", constata.

A coordenadora do projeto observa que anteriormente a alfabetização nas escolas indígenas era feita em português. Havia casos de alunos que ficavam 10 anos na 1ª série. Por isso, foi decidido produzir material de ensino na língua indígena.

"Além de ser uma agressão cultural sem medida, deve agredir a criança no início da educação formal", comenta, com relação ao fato de estes serem índios monolíngues.

Dos 200 professores Sataré-Mawé, 20 participaram do processo, e muitos querem continuar a pesquisa, relata a coordenadora.

O próximo passo será a estratégia de formar multiplicadores com oficinas para repassar o conhecimento, útil na alfabetização na língua. As escolas das aldeias começam a implantar a 5ª e 6ª séries.

Na mesa-redonda Fomento à Pesquisa e Educação, na Reunião Regional em Manaus, sobre o Programa Jovem Cientista Amazônida (JCA), da Fapeam, foi também relatada a experiência de educação com os professores Mura, coordenada por Rosa Helena Dias da Silva, da Ufam.

O crescimento da população Mura, de 91 indivíduos em 1975 para 5.978 em 2004, segundo a Funasa, para a coordenadora, "se deve ao trabalho de conscientização pela escola indígena, que resulta na afirmação identitária". A maioria mora no município de Autazes.

Estiveram sempre presentes na pesquisa, segundo Rosa Helena, questões como identidade, na sua relação com a escola e a construção de um 'orgulho étnico', a superação dos efeitos históricos gerados pelo preconceito contra os Mura.

A pesquisa 'Os professores Mura e a construção de uma política indígena de educação escolar: princípios, processos e práticas' contou com a participação do coordenador da Organização dos Professores Indígenas Mura (OPIM), Mariomar Moreira de Souza e de Alcilei Vale Neto, técnico, coordenador do Setor de Educação Indígena da Secretaria Municipal Educação de Autazes.

A OPIM é composta por 42 professores Mora que atuam em 10 escolas de Autazes e atendem a 1.055 indígenas, informa Rosa Helena.

Na pesquisa, a entidade indígena foi responsável pela articulação junto ao conjunto de professores Mura e pelo contato com as comunidades e lideranças Mura. Os dois tutores indígenas, segundo ela, responsabilizaram-se, junto aos diretores das escolas, pelo acompanhamento dos alunos JCA.

A Ufam participou do projeto com o Grupo de Pesquisa Formação de Professores(as) Educador(a) frente aos desafios amazônicos, do Programa de Pós Graduação em Educação (PPGE).

O acesso de Manaus até o local em Autazes onde foram realizados os seis fóruns de educação continuada, se dá por 12 a 14 horas de barco, 4 a 5 horas de ônibus ou 20 minutos de táxi aéreo, conta a coordenadora. A Fapeam investiu R$ 20 a R$ 22 mil no projeto.

Os alunos bolsistas Jovens Cientistas elaboraram, em leituras e pesquisas na comunidade, dois textos sobre a História do Povo Mura, com orientação da bolsista PIBIC Isabel Cristina.

"A temática das pedagogias indígenas, o seu modo de educar na vida e na escola - conclui Rosa Helena - ainda é bastante desconhecida pela academia. Mesmo sendo reconhecida pela Constituição de 1988, LDB e Plano Nacional de Educação", assinala a coordenadora do projeto.

Rosa Helena assegura que a pesquisa deu visibilidade e credibilidade aos saberes tradicionais historicamente construídos pelo povo Mura, um dos mais de 65 que habitam o estado do Amazonas.

"A pesquisa pode contribuir na consolidação e aprimoramento do conhecimento da escolarização indígena como política dos próprios povos indígenas. Por outro lado, possibilitou a continuidade da inserção do grupo na temática, incluindo novos desafios, como o caso do ensino superior, as Licenciaturas Específicas para professores indígenas".

O projeto de Licenciaturas, segundo a pesquisadora, é necessário para que os professores possam assumir o ensino regular de 5ª a 8ª séries nas aldeias e futuramente o ensino médio.

No edital Prolind (Programa de Licenciaturas Indígenas), da SESu/SECAD/MEC, foi aprovada proposta da UFAM e da OPIM para preparação de cursos específico para os professores Mura.

Benjamin Constant, no Amazonas, faz fronteira com o Peru. Nas comunidades Guanabara II e Nova Aliança, perto também da Colômbia, índios cocama de origem peruana e agricultores aculturados descendentes de cocama participaram do projeto 'Saber e cidadania: a educação integral como instrumento de inclusão social'.

O coordenador do projeto do JCA, Marco Antonio de Freitas Mendonça, conta a comunidade de grande diversidade cultural e religiosa fala espanhol e português, mais espanhol, e é "completamente desassistida".

Marco Antonio disse ter constatado que estas comunidades já praticavam ciência, mas de forma não sistematizada. O coordenador conta que o projeto piloto percebeu que a educação é o meio para multiplicar os efeitos da ação de inclusão social.

O projeto visou "implantar e validar experiências de educação para jovens e adultos, promovendo a formação integrada de sujeitos críticos, garantindo a sua inclusão social".

A execução se deu com trabalhos sócio-educativos em comunidades rurais indígenas e não indígenas para melhoria da qualificação profissional e incentivo à organização social, econômica e política, informa o coordenador do projeto.

Um dos resultados que ele destaca é que um dos professores, Jovem Cientista formado num destes núcleos educacionais, fez o ensino fundamental, o ensino médio acelerado e já ingressou na Universidade.

"É um exemplo vivo para os outros de que é possível, e de efeito multiplicador", disse Marco Antonio. A comunidade, segundo ele, já tem programa de rádio e está divulgando a experiência do projeto concluído em julho. "Mas as atividades prosseguem", afirma.

A ação do projeto em Benjamin Constant começou com duas pesquisas sobre espécies medicinais e essência florestal, na coleta de informações que eram trazidas para análise científica em sala de aula. As plantas eram medidas e se faziam comparações entre o seu desenvolvimento na origem e em viveiro.

O coordenador disse ter ficado "impressionado" com a tecnologia que os índios e aculturados já têm sobre espécies, identificando plantas pelo cheiro e sabendo qual o melhor galho para cultivar mudas.

Com base nas observações do campo, os Jovens Cientistas discutiam geografia ao analisar o tipo de solo e matemática quando obtinham as medidas do material coletado.

"Eles não construíam o conhecimento com observação exógena, mas se apropriavam da ciência, de uma informação a partir da realidade local", explica o coordenador.

Os R$ 98 da bolsa de cada dos 16 Jovem Cientistas eram repassados à associação comunitária, que gerenciava a quantia, conta o Marco Antonio. A participação no projeto teve como resultado que uma das comunidades resolveu assumir a identidade indígena e a outra, mais cabocla, ficou interessada em resgatar a memória da etnia.

Marco Antonio informa que o projeto pretendeu o fortalecimento da educação integral, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e solidário.

Outras metas foram a discussão de questões regionais no interior do debate sobre alternativas de desenvolvimento, a diminuição gradativa e processual dos índices de analfabetismo e sub-escolarização da população rural e a inserção da prática científica nas atividades cotidianas de educação.

"Um dos maiores entraves para a participação social e para a conquista da cidadania é o baixo nível de escolaridade, em particular o analfabetismo", afirmou.

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, a 25 Km de Manaus, onde o rio Negro descobre suas praias na época de seca, foi escolhida pela equipe coordenada por George Henrique Rebelo, do Inpa, para a pesquisa 'A prática da iniciação científica no ensino fundamental'.

O projeto patrocinado pela Fapeam se deu numa relação de complementaridade com o projeto BioTupé, desenvolvido entre comunidade e escola São João.

Coordenador do projeto, George Henrique Rabelo, do Inpa, conta que a pesquisa foi idealizada para desenvolver e estimular a prática da pesquisa científica dos alunos da escola São João, na perspectiva de melhoria da qualidade de vida e inclusão social dos habitantes da RDS Tupé.

As ações foram formuladas de forma participativa em sub-projetos para quantificar o volume do lixo produzida pelos turistas de fim-de-semana, verificar a influência do desmatamento sobre a qualidade da água do lago Tupé e determinar as plantas medicinais e alimentares utilizadas pela comunidade.

O estudo buscou ainda realizar o histórico e levantamento dos insetos de interesse médico e agrícola na área, localizar criadouros do vetor de malária e colônias de saúvas, caracterizar a caça de subsistência e usos locais da fauna e partilhar e divulgar os conhecimentos gerados e as experiências em parcerias deste tipo, e sua contribuição para o manejo sustentável da RDS Tupé.

Foram concluídos os estudos sobre plantas medicinais, a fruta bacaba, malária, saúva e pesca, com a publicação de quatro pôsteres. Participaram do projeto sede alunos bolsistas e dois professores da comunidade.

A Fapeam investiu R$ 1,5 milhão no Programa Jovem Cientistas em 2004 e R$ 1,1 milhão este ano dos R$ 1,4 milhão previsto.



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