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Mon Apr 24 01:30:25 UTC 2006


  Publicado em *ComCiência <http://www.comciencia.br/comciencia/?>* (Revista
Eletrônica de Jornalismo Científico)
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*Bonecas de cerâmica revelam patrimônio imaterial dos Karajá
*
Por Zulmara Carvalho
20/04/2006

Aos cinco anos de idade, a menina Karajá ganha uma família de bonecas de
cerâmica. Em uma sociedade ocidental, o conjunto seria como o "primeiro
material didático". Mas para os Karajá, esses artefatos vão além disso e
preparam a criança para realizar a passagem do mundo infantil para o adulto,
transmitindo os valores e costumes da tribo. A percepção do papel desses
objetos na sociedade Karajá só foi possível a partir da visão inovadora da
pesquisa da antropóloga do Museu de Arqueologia e Etnologia (
MAE<http://www.comciencia.br/comciencia/www.mae.usp.br>)
da USP, Sandra Lacerda Campos. Em seu trabalho, a pesquisadora defende que a
análise dessas peças, a partir das pinturas e adereços nelas contidos,
revela diferentes aspectos da organização cultural, uma vez que simbolizam
os diversos planos da visão de mundo desse grupo.

O povo Karajá, que é o único a produzir bonecas em cerâmica no Brasil,
pertence a uma nação de língua macro-jê e vive no Parque Nacional do
Araguaia, às margens do rio que deu nome à reserva indígena. Até Campos se
questionar sobre a forma de circulação das bonecas na própria cultura
Karajá, elas eram consideradas pelos museólogos como meros artefatos
lúdicos.

A antropóloga partiu de um levantamento do repertório dos motivos gráficos,
da pintura, das incisões e dos adereços presentes nas bonecas e associou-os
aos motivos impressos na pintura corporal indígena Karajá. Dessa forma, pode
compreender a representação simbólica dos vários planos da cosmologia dessa
cultura e de que forma ela é transmitida às crianças por meio desse
artefato.

Campos explica que a partir da análise de uma família de bonecas é possível
perceber nove fases da vida de um indivíduo Karajá, seis delas apenas na
infância: a criança recém nascida; o bebê de colo; quando pode sentar-se;
engatinhar, andar e quando entra na "idade escolar". "O recém nascido, por
exemplo, recebe um banho de urucum para extrair o cheiro do parto. Esse
costume é ensinado para as crianças porque no conjunto de bonecas, há uma
pequena que é toda vermelha", esclarece a antropóloga. Além disso, na
pintura corporal Karajá são representadas todas as informações sobre o
indivíduo: idade, estado civil, função na tribo e talento. "As crianças
aprendem a identificar todas essas informações na iconografia das bonecas -
diz Campos - É possível identificar quais mulheres são artesãs e/ou
dançarinas, por exemplo". Entre as bonecas, também há representação de
indivíduos velhos, arquedos ou com os seios caídos. Segundo Campos, os
Karajá também preparam as crianças para a velhice mostrando que essa é
apenas mais uma fase da vida.

Até o período da iniciação - passagem do mundo infantil para o mundo adulto
- não há distinção entre meninos e meninas na tribo. Nessa fase, as crianças
apenas brincam e aprendem. Aos 5 anos, elas entram em 'idade escolar', e as
meninas ganham um conjunto de bonecas de cerâmica, com as quais aprendem os
costumes e valores da tribo. Os meninos, por sua vez, apreendem essa
simbologia pelo contato com as meninas.

DESDOBRAMENTOS DO CONTATO

A pesquisa sobre a interpretação do patrimônio imaterial do grupo Karajá, a
partir de suas bonecas de cerâmica, surgiu de uma cena de bastidores: ao
realizar a re-documentação das coleções Karajá do acervo do MAE - que é um
dos maiores e mais antigos do Brasil, composto por cerca de quatro mil peças
- Campos encontrou uma boneca de pano, trajada com cinco saias e um lenço
preto na cabeça, que estava registrada como pertencente a esse grupo
indígena. Após a confirmação de que era um artefato Karajá, apesar do
material utilizado para confecção ser diferente do usual, ficou clara para
Campos a influência do contato com a sociedade ocidental - tópico também
explorado na pesquisa.

Além das manifestações culturais de um povo passarem por processos
dinâmicos, mesmo sem o contato com outra sociedade, o estudo das coleções do
MAE mostra que a produção artesanal Karajá vem sofrendo transformações em
sua tipologia e em seus padrões de confecção desde o estabelecimento da
relação com os ibéricos. Segundo Campos, nas bonecas antigas, por exemplo,
as formas são roliças e os cabelos são moldados com cera de abelha. Na
produção moderna, as bonecas ganham braços, pernas alongadas e detalhes que
dispensaram o uso da cera de abelha. Contudo, os motivos gráficos e os
adornos se mantêm fiéis aos tradicionais.

Atualmente, para fins comerciais, as artesãs produzem peças que reproduzem o
cotidiano, principalmente a rotina diária: processamento da mandioca
(atividade feminina) ou caça e pesca (atividade masculina). Nas bonecas são
aplicados os padrões ornamentais, que seguem os mesmos utilizados na pintura
corporal, incluindo a marca tribal omarury (mito sol/lua) em seus rostos.
Contudo, "possivelmente em função de sua experiência inicial com os
ibéricos, os Karajá possuem seus 'segredos' e - na direção de preservar a
sua identidade - produzem bonecas diferenciadas para circularem na aldeia.
Essas são mais parecidas com as antigas, que têm como característica a
ausência dos braços", explica Campos. É nesse contexto que a pesquisadora
defende que a confecção das bonecas expressa, além das relações entre
inovação e tradição na produção da variação e da dinâmica culturais, a
adaptação aos parâmetros econômicos locais.

As bonecas exibem "profundas preocupações estéticas, ao mesmo tempo em que
concilia traços de representações de ordem histórica, social e cultural",
argumenta Campos. Além disso, "os motivos reproduzidos tanto nas bonecas,
quanto na cestaria, na cerâmica e na pintura corporal representam um reflexo
da concepção de si próprios quanto indivíduos ou grupo", completa a
pesquisadora.

"Muitos argumentam que índio não é mais índio porque usa roupa e telefone
celular. Isso não é verdade.", defende Campos. Em contato com a civilização
ocidental desde a época das expedições bandeirantes, o povo Karajá mantém
sua identidade cultural por um método eficaz: educação.

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