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Fri Apr 21 17:02:04 UTC 2006


 Publicado em *ComCiência <http://www.comciencia.br/comciencia/?>* (Revista
Eletrônica de Jornalismo Científico)
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*Língua indígena do Amazonas ganha dicionário*

Por Cauê Nunes
12/04/2006

O rápido desaparecimento de línguas indígenas brasileiras explica por que
muitos pesquisadores estão correndo para documentá-las e registrá-las. Para
se ter uma idéia, das mais de 170 línguas faladas no Brasil, somente cerca
de 25 possuem algum tipo de registro. Com o objetivo de preservar uma das
línguas que corre o risco de desaparecer, a ONG Saúde Sem Limites, em
parceria o antropólogo Renato Athias, da Universidade Federal de Pernambuco,
o lingüista Henri Ramirez, da Universidade Federal de Rondônia, e a
comunidade local elaboraram um dicionário da língua dos Hupd'äh, uma etnia
de 1600 indivíduos que vivem na Terra Indígena Alto Rio Negro, na bacia do
Rio Uaupés, no Amazonas.

"O principal objetivo da produção do dicionário foi possibilitar a educação
específica e diferenciada para os Hupd'äh e assim garantir que a educação
escolar indígena seja de fato efetuada", diz Athias. Atualmente, as pessoas
em idade escolar freqüentam escolas Tukanas, um grupo étnico vizinho, mas
Athias acredita que a partir do dicionário será possível desenvolver uma
educação Hupd'äh.

Como a etnia Hupd'äh ocupa um lugar baixo na escala hierárquica da região, a
língua é desvalorizada e considerada "feia" pela demais etnias e por isso
corria o risco de desaparecer. "O dicionário valoriza a língua e estabelece
um elemento poderoso no fortalecimento da identidade do grupo", diz o
antropólogo. Isso quer dizer que além de ser um objeto voltado para
educação, o dicionário também tem um papel político importante.
Para Athias, a introdução da escrita em uma língua, que foi durante muito
tempo transmitida pela oralidade, tem elementos positivos, como a
preservação da língua e a possível educação na língua nativa. Mas por outro
lado, pode trazer riscos de descaracterização da cultura da etnia. "Muitos
missionários a utilizam, por exemplo, para traduzir os evangelhos e provocar
mudanças nos comportamentos. Mas se for bem utilizada, a língua pode ser
inclusive uma arma", afirma.

De acordo com o professor de letras da USP e pesquisador de línguas
indígenas, Waldemar Ferreira Netto, é difícil prever os riscos envolvidos na
introdução da escrita, mas os benefícios para a etnia são evidentes. "A
tendência dos povos indígenas é ser bilíngüe. Se eles não aprenderem a
escrita na língua nativa, aprenderão em outra língua, então a função do
dicionário é possibilitar a educação na língua-mãe", diz.

De acordo com o antropólogo Mauro Almeida, da Universidade Estadual de
Campinas, o surgimento de publicações voltadas para os grupos étnicos nos
últimos anos é uma demanda das próprias etnias que querem preservar a
língua. "Além da demanda por dicionários, existe também um interesse por
publicações de mitos", diz Almeida. O antropólogo ressalta ainda que, em
muitos casos, a preocupação dos índios é de resgatar uma língua que está
sendo esquecida pela etnia.

*Construção coletiva*

Por mais de três anos, os pesquisadores viajaram freqüentemente para a
região do Alto do Rio Negro com o objetivo de encontrar índios que fossem
bilíngües (aproximadamente 40 Hupd'äh falam português como segunda língua).
Durante essas viagens, os pesquisadores analisaram como os índios constroem
frases, usam verbos e compõem o alfabeto. Após isso, em um trabalho
coletivo, os pesquisadores e os Hupd'äh iniciaram a construção do
dicionário. "Nós nos reunimos nas aldeias para escolher quais símbolos
escritos serviriam para representar a língua e as letras escolhidas foram as
do alfabeto português", diz Athias.

Atualmente 42 Hupd'äh estão fazendo cursos de preparação para o magistério e
quando se formarem professores poderão ensinar as crianças na língua nativa,
integrando a etnia no sistema nacional de ensino.

Segundo Athias, inicialmente o dicionário será utilizado somente para a
educação indígena, mas no futuro haverá uma edição que será lançada
comercialmente. De acordo com Netto, há pouco interesse das editoras
brasileiras em publicar dicionários indígenas, e também pouco incentivo do
governo nesse sentido. "É mais fácil publicar fora do país do que aqui",
diz. De acordo com Netto, dicionários para a educação indígena são
importantes porque fortalecem a auto-estima dos índios. "Esse tipo de
dicionário contribui muito para a construção da identidade da etnia porque a
língua é um marcador identitário muito poderoso", afirma Netto.

Segundo a ONG Saúde Sem Limites, a produção do dicionário foi financiada
pela organização não governamental espanhola Manos Unidas e Cooperación Al
desarrollo Generalitat Valenciana.

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