Sotaques brasileiros

Beni Borja - Psicotronica beni at PSICOTRONICA.COM.BR
Tue Nov 25 13:04:26 UTC 2008


Rick, 

Genial! Valeu pelas informações preciosas. 

Quando eu comecei a pensar nesse assunto do que nós hoje temos dos nossos antepassados indígenas , uma das primeiras coisas que eu percebi foi a presença da culinária. 

Os hábitos culinários são determinados pela natureza, né? O que me ocorreu é que em tudo que diz respeito a natureza , dos toponímicos ao vestuário, a presença dos nossos antepassados continua fortíssima. O camarão na moranga é novidade prá mim. Eu aqui na minha ignorância nem sabia que o nosso jerimum era originário da América do Sul... veja vc. , quanto mais da contribuição dos agricultores jê para sua difusão. 

Acho sua iniciativa de um cardápio histórico notável, e imagino que vc. tenha ainda muitas informações interessantes sobre a presença dos hábitos culinários e da sua história na nossa dieta, um assunto altamente relevante para minha pesquisa. 

Uma coisa que não coube na canção para qual essa pesquisa começou , foi a justiça poética do mate ter virado bebida de praia. O mate aqui no Rio é sinônimo de praia. Cresci bebendo mate na praia desconhecendo completamente que mate era uma coisa típica da nossa cultura, imaginando que nas praias da Califórnia ou do Havaí todo mundo bebia mate também. O curioso é que o mar para os guaranis, tinha um valor simbólico muito grande, chegar ao mar era um objetivo mítico deles... que coisa doida. ( Os especialistas me corrijam se eu estiver falando besteira, por favor!)

Aguardo então, quando vc. tiver um tempo, mais informações. 
  








 

  ----- Original Message ----- 
  From: rick at mbox1.ufsc.br 
  To: etnolinguistica at yahoogrupos.com.br 
  Sent: Sunday, November 23, 2008 3:56 PM
  Subject: Re: [etnolinguistica] Sotaques brasileiros


  Ola Beni, tambem nao sou da etnolinguistica, mas gosto de ler as 
  coisas comentadas. Sou professor do Centro de Ciencias Agrarias da 
  UFSC, em Florianopolis, em penso nas mesmas coisas, que herança nos 
  temos dos povos anteriores? A minha sorte eh que tenho mais coisas 
  concretas a mão, para me expressar. O estado tem um rico passado 
  arqueologico, e um rico presente de indigenas e pequenos agricultores 
  europeus, que mantem muitas tradicoes indigenas. Estou esperando um 
  restaurante adotar a minha sequencia arqueologica, para os turistas 
  daqui. Começa com ostra crua e ao bafo, representando a facil dieta do 
  homem do sambaqui, os primeiros moradores do litoral. Em seguida 
  aparecem os agricultores Je, que chegaram do interior, com jirimuns e 
  morangas, e inventaram o camarão na moranga, fabuloso prato do 
  litoral daqui, dispensa panela, e valoriza a moranga, uma Cucurbita 
  domesticada aqui no sul mesmo!. Por final, aparece o peixe com pirão, 
  a mandioca sendo uma introdução dos amazonicos Guarani, por final, e 
  sobremesa de bolo de milho, tambem Guarani.
  Como eu penso na evolução da agricultura, tive a sorte de alguns anos 
  atrás, com a dissertação da minha aluna Marta Pedri, conhecedora de 
  muitas etnias do Brasil, ter a visão da contribuição culinária destes 
  movimentos que voce procura. Com certeza a culinaria brasileira tem 
  muito mais diversidade do que a lingua falada.
  Podemos somar coisas discutidas aqui nesta lista, como o nome Aruak, 
  maiz, para milho, dividindo o Brasil com o avati, dos Guarani. 
  Enquanto maiz ganhou o mundo para esta cultura importante, os Guarani 
  ganharam o mundo com jaguara, o caçador, ou jawaretê, o verdadeiro 
  caçador, a onça-pintada.
  Mas prefiro voltar a comida, onde com certeza voce encontra, 
  concretamente, todas as etnias passadas, contribuindo para a fartura 
  da mesa brasileira.

  Rick Miller

  Quoting Beni Borja - Psicotronica <beni at psicotronica.com.br>:

  > Prezado Eduardo
  > Muitíssimo agradecido pela sua atenção. Foi ótimo saber que o tema 
  > também te interessa. Suas considerações foram altamente 
  > esclarecedoras ,embora algo decepcionantes.
  >
  > Confesso que me senti como uma criança que tem sua bola furada. 
  > Minha tese parecia tão bacana! Mas isso é que dá ser "intelectual 
  > de miolo-mole" como alguém já chamou o Caetano , numa definição que 
  > cabe bem para todos os artistas.
  >
  > De fato, não considerei que entre o português e as línguas indígenas 
  > houve a língua geral, coisa que eu sabia, entre outras fontes 
  > pelas minhas leituras do Capistrano. Aliás , acho que foi no 
  > Capistrano que li que os bandeirantes chamavam de "gente da língua 
  > travada" as populações indígenas do interior , no que me pareceu um 
  > referência as línguas do ramo macro-jê ( é isso mesmo ? ou estou 
  > viajando na maionese mais uma vez?),
  >
  > O "travamento" a que eles se referiam , no meu delírio 
  > "miolo-molístico" me remeteu ao nosso querido "r" retroflexo, mas 
  > suas considerações revelam a inconsistência da minha conjectura.
  >
  > Na verdade a minha primeira idéia sobre esse tema veio do sotaque 
  > nordestino. Tenho avós potiguares e cearenses , como vc. cresci num 
  > ambiente "bi-lingue". Se a cultura "caipira" ainda tem referências 
  > presentes da cultura indígena ( meu disco favorito do momento é "O 
  > canto da Terra" da dupla Cacique e Pajé, conhece?), no Nordeste a 
  > presença da cultura indígena é totalmente rejeitada.
  >
  > Meu avô Francisco, potiguar da Chapada do Apodi, de uma família 
  > estabelecida há séculos naquela região, era fisionômicamente um 
  > índio. Entretanto , rejeitava e se sentia mesmo ligeiramente 
  > ofendido, se alguém fizesse referência a antepassados indígenas. 
  > Pensei que fosse uma indiosincrasia pessoal, mas com passar dos 
  > anos percebi que era um traço marcante da cultura "nordestina" a 
  > rejeição total da cultura indígena. Algo que implicaria que em 
  > algum momento da história teria descido em algum lugar do sertão 
  > nordestino uma espaçonave com extra-terrestres de cabeça chata.
  >
  > A negação sistemática da contribuição indígena a nossa cultura é 
  > certamente algo com a qual vcs. estudiosos estão acostumados ,até 
  > porque deve ser um elemento essencial da dificuldade das pesquisas , 
  > mas para mim foi um choque. Foi tentando ver aonde subsiste "o 
  > índio" no brasileiro de hoje , que comecei a me interessar por esse 
  > tema. Quando os recentes estudos sobre o DNA do brasileiro, 
  > comprovam científicamente o que nós já vemos na cara das pessoas , 
  > me parece que esse é um tema à tratar em arte.
  >
  > A gente bebe mate e guaraná , fala mil palavras em tupi-guarani , 
  > faz festas ritualizadas em qualquer evento e acha que índios são só 
  > quem vive em aldeia... Os indios somos nós também, não é?
  >
  > Ou seja, eu estava tentando do meu modo meio "psicodélico" 
  > estabelecer uma certa continuidade cultural entre os brasileiros de 
  > hoje e os povos indígenas pré-descobrimento, um exercício que me 
  > parece fundamental para o nosso psique-nacional. Me parece que para 
  > vencermos definitivamente o nosso complexo de vira-lata , para que a 
  > nossa auto-estima não seja uma reflexo contra-fóbico do nosso 
  > complexo de inferioridade, para que nos sintamos confortáveis nessa 
  > pele "vermelha" de brasileiros , é preciso se re-encontrar com o 
  > índio, mesmo que seja numa invenção de passado.
  >
  > Digo isso tudo porque , apesar da minha "bola furada" continuarei 
  > usando o verso -línguas mortas viram sotaques" - em uma canção 
  > (ainda inédita) que eu fiz chamada "Viagem de Volta" ( título 
  > surrupiado duma coletânea organizada pelo antropólogo João Pacheco 
  > de Oliveira sobre a reelaboração cultural no Nordeste indígena).
  >
  > Mas voltando ao tema , e a exploração da sua boa vontade em ensinar 
  > um ignorante. Existem no nosso léxico centenas de palavras a que são 
  > identificadas como originárias do tupi-guarani , imagino que sejam 
  > as que se incorporaram a lingua-geral. Me pergunto , e o jê? , ficou 
  > só nos toponímicos? Ou existem palavras que usamos ainda hoje de 
  > origem jê?
  >
  > Agradacendo mais uma vez a sua generosidade,
  >
  > um abraço
  >
  > Beni
  >
  >
  >
  >
  >
  >
  >
  > ----- Original Message -----
  > From: Eduardo Rivail Ribeiro
  > To: etnolinguistica at yahoogrupos.com.br
  > Sent: Friday, November 21, 2008 6:45 PM
  > Subject: Re: [etnolinguistica] Sotaques brasileiros
  >
  >
  > Prezado Beni,
  >
  > Obrigado por levantar este tema, de fato fascinante. Também andei matutando
  > a respeito e cheguei mais ou menos à conclusão de que a raiz da diversidade
  > dialetal do português brasileiro se deve mais à diversidade original do
  > português trazido para cá (que não era homogêneo e muito menos padronizado)
  > e às peculiaridades do povoamento das diversas regiões do país do que a
  > fatores de substrato (ou seja, à influência de línguas que eram faladas
  > antes da chegada do português). Talvez o desenvolvimento de línguas gerais
  > baseadas no Tupí da Costa, e que acabaram sendo adotadas por todos 
  > os grupos
  > étnicos que compunham a sociedade colonial na maior parte da América
  > portuguesa, tenha prevenido que línguas indígenas regionais tivessem um
  > impacto maior no português que, mais tarde, se tornaria a língua
  > predominante.
  >
  > Não que eu tenha feito uma pesquisa aprofundada do assunto, levando em
  > consideração todos os dialetos do português brasileiro. Meu interesse diz
  > respeito principalmente ao chamado "dialeto caipira" (meu dialeto nativo),
  > que é falado justamente em regiões colonizadas inicialmente pelos
  > bandeirantes paulistas. Como estes falavam, então, a Língua Geral Paulista,
  > uma pergunta natural seria se o dialeto caipira teria recebido uma
  > influência Tupí maior (quando comparado com, digamos, o português do Rio).
  >
  > Por exemplo, seria o chamado "r caipira" (ou seja, a pronúncia 
  > retroflexa do
  > "r" em posição de coda silábica), que é a característica mais marcante (e
  > discriminada) do português caipira, um resquício de alguma língua indígena?
  > Como a Língua Geral Paulista era difundida nestas regiões, seria o suspeito
  > ideal. Mas é bastante improvável, não só porque o Tupí da Costa (e
  > provavelmente suas descendentes, as línguas gerais) não tinha tal 
  > pronúncia,
  > mas porque uma explicação interna é ainda mais plausível: o lingüista Brian
  > Head, que foi professor da Unicamp e está agora, se não me engano, em
  > Portugal, tem um artigo bastante interessante sobre o desenvolvimento do "r
  > caipira" a partir de fatores internos do próprio português. [Vou ver se
  > encontro o artigo por aqui, para aqueles que se interessarem.]
  >
  > Como tem sido demonstrado por vários autores (por exemplo, Naro & Scherre),
  > muitas das características que se imaginam serem tipicamente brasileiras e
  > até indício de "crioulização" em alguns dialetos do português brasileiro já
  > ocorriam em Portugal, antes da "descoberta". Muitos são resultados de
  > tendências características no desenvolvimento das línguas românicas, nos
  > dois lados do Atlântico. No caso do dialeto caipira, os mesmos fatores que
  > favoreceram no início o uso da Língua Geral Paulista (ou seja, isolamento,
  > fluxo menor de imigrantes portugueses) favoreceram a preservação de
  > arcaísmos e o desenvolvimento de características peculiares, longe das
  > tendências padronizantes que porventura ocorressem na costa e na metrópole.
  > Em um artigo que escrevi há algum tempo sobre o assunto, menciono uma coisa
  > que sempre achei interessante, desde menino (já que, como descendente de
  > mineiros e baianos, cresci em "lar bilingüe"): o português falado 
  > em regiões
  > que sofreram miscigenação mais intensa tende a ser mais próximo ao 
  > "padrão".
  > É que regiões de fácil acesso e economicamente prósperas (Belém e Salvador,
  > por exemplo), que mais necessitaram mão-de-obra indígena ou africana, foram
  > também as que mais atraíram um fluxo contínuo de imigrantes portugueses.
  >
  > É claro que, quando falo em "influências" acima, tenho em mente influências
  > estruturais, na fonologia, na morfologia e na sintaxe (ou, até, na
  > semântica). Neste aspecto, especificamente, não há nada que se possa em
  > definitivo atribuir a influências indígenas. O léxico, naturalmente, é
  > outra história. Além do número enorme de termos de origem Tupí que
  > sobrevivem no português falado no país inteiro, há aqueles que tendem a ser
  > mais comuns onde a influência cultural indígena teve um impacto maior -- a
  > cultura caipira sendo uma delas. Mas isto, parece-me, não é o que vem à
  > mente quando se fala em "sotaques diferentes".
  >
  > No caso do léxico, sim, acham-se exemplos de influências indígenas 
  > locais no
  > português de certos lugares onde índios e não índios conviveram (ou ainda
  > convivem). Por exemplo, em São Félix do Araguaia, não é incomum que um não
  > índio use palavras Karajá como kòhã 'cachaça' ou kutura 'peixe'. E 
  > me lembro
  > de um bate-papo com Lucy Seki, maior especialista em Krenák, em que ela
  > mencionava o uso de palavras como curuca 'criança' no português de áreas
  > tradicionalmente Krenák (cf. Krenák kruk) -- se não me falha a memória (é
  > isso mesmo, Lucy?).
  >
  > Bem, espero que esta conversa não pare por aqui. Alguém saberia de exemplos
  > de influências exercidas por línguas regionais em certos dialetos do
  > português brasileiro?
  >
  > Abraços,
  >
  > Eduardo
  >
  > ----- Original Message -----
  > From: Beni Borja - Psicotronica
  > To: etnolinguistica at yahoogrupos.com.br
  > Sent: Thursday, November 20, 2008 8:52 AM
  > Subject: [etnolinguistica] Sotaques brasileiros
  >
  > Prezados Professores, Doutores e Sabidos em geral,
  >
  > Com a cara-de pau que a internet me faculta , me atrevo a invadir esse
  > espaço de doutas discussões para propor uma questão que me aflige.
  >
  > Sou um mero músico/ ompositor popular , leigo por completo nas artes e
  > manhas da etno-linguística, mas um profundo curioso sobre a intercessão
  > entre as linguas e a história.
  >
  > Num colóquio etílico recente com um amigo, discutíamos sobre os diversos
  > sotaques do Brasil. Inspirado por Baco fiz a temerária afirmação que os
  > nossos diversos sotaques regionais, tem sua gênese nas línguas indígenas
  > faladas naquelas regiões antes do aparecimento do português.
  >
  > É com certeza uma afirmação que tem a leviandade típica dos ignorantes, que
  > despreza a enorme complexidade da presença indígena antes da invasão
  > portuguesa e as dificuldades de estabelecer um nexo causal entre o 
  > português
  > falado hoje e as línguas faladas pelos índios.
  >
  > Mas não obstante essas dificuldades , teria a minha tese algum farrapo de
  > evidência para sustentá-la??
  >
  > Agradecendo desde já a "ajuda dos universitários" que por ventura receba,
  >
  > abraços
  >
  > Beni Borja
  >
  >
  >
  >
  >

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