Resumo: kur� 'porco dom�stico'

Eduardo Rivail Ribeiro kariri at GMAIL.COM
Tue Aug 26 01:28:13 UTC 2008


Prezados,

Gostaria de agradecer a todos os que se dispuseram a fornecer informações em 
resposta a minha mensagem sobre a distribuição da palavra kuré 'porco' e a 
participar da interessante discussão na lista: Wolf Dietrich, Mariana 
Garcia, Angel Corbera, Victor Petrucci, Willem Adelaar, Ilda de Souza e 
Pedro Viegas.

Como a mensagem de Wolf Dietrich e as evidências adicionais dos empréstimos 
em Terena e Kinikinawa deixam claro, kuré ocorre predominantemente nas 
línguas Guaraní. A explicação semântica sugerida por Wolf ('restolho de 
milho' > 'o que come restolho de milho') me parece bastante plausível. [A 
propósito, no meu dialeto do português (o chamado 'português caipira'), 
temos a palavra quirera, exatamente com o mesmo sentido dado por Wolf; a 
quirera é usada na alimentação de animais, principalmente suínos.]

Se os exemplos em Macro-Jê (Kipeá kuré, Krenák kurek) são, de fato, 
empréstimos, o suspeito de sempre seria a Língua Geral Paulista, que, dada 
sua origem, estaria mais sujeita a influências do Guaraní. Hipótese 
semelhante se aplica ao caso da palavra karajá 'guariba', que mencionei aqui 
na lista em outra ocasião 
(http://br.groups.yahoo.com/group/etnolinguistica/message/715).

No entanto, uma exceção digna de nota é o fato de que kuré 'porco doméstico' 
ocorre também em línguas mais ao norte, se bem que a distribuição é bastante 
limitada: Ka'apor e Tembé, nos dados de que disponho (Kakumasu & Kakumasu 
2007, Rice 1934). O interessante é que, aqui, a palavra para 'migalha etc.' 
é ligeiramente diferente da palavra para 'porco doméstico':

Tembé (Rice 1934:138)
kure 'porco doméstico'
kurere 'resto, parte'

Ka'apor (Kakumasu & Kakumasu 2007)
kure 'porco doméstico'
kurer 'estar em pedaços'

Isto sugeriria que, pelo menos nestas duas línguas, 'porco doméstico' e 
'migalha' não estariam relacionados. Uma possibilidade é que, afinal, kuré 
seja aqui também um empréstimo, mas como teria sido introduzido permanece 
indeterminado.  As fontes que pude consultar não fazem menção a possíveis 
contatos com bandeirantes 
(http://www.socioambiental.org/pib/epienglish/kaapor/kaapor.shtm;
http://www.socioambiental.org/pib/epienglish/tembev/tembe.shtm).

Também interessante foi a discussão em torno de palavras como esp. cochino 
etc. e palavras semelhantes em línguas indígenas americanas. Como lembra 
Pedro Viegas, se a origem é onomatopéica (como vários colegas mencionam e 
como sugere, por exemplo, o dicionário da Real Academia, para o esp. 
cochino), é possível que pelo algumas das ocorrências destes termos sejam 
criações independentes; cf. Kamakã, para o qual a possibilidade de 
empréstimo espanhol é um tanto remota: kuyá. [A propósito, no meu dialeto, 
uma forma usada para chamar porcos é ['kutSI], repetida seguidamente de 
maneira rápida.]

As formas Jê mencionadas por Victor, com uma primeira sílaba ku-, são 
provavelmente uma outra história: ku- parece ser, em certos nomes de 
animais, um prefixo.

Mais uma vez, obrigado a todos pela ajuda e pela interessante discussão.

Abraços,

Eduardo
------------
Referências:

Frederik John Duval Rice. O idioma Tembé (Tupí-Guaraní)., Journal de la
société des américanistes, 1934, n° 1, pp. 109-180.
http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/jsa_0037-9174_1934_num_26_1_1911

Kakumasu, James Y. e Kiyoko Kakumasu, 2007, Dicionário por Tópicos -
Kaapor - Português (1868 kB), Associação Internacional de Lingüística,
Cuiabá, MT. http://www.sil.org/americas/brasil/PUBLCNS/DICTGRAM/UKDict.pdf


----- Original Message ----- 
From: Pedro Viegas Barros
To: etnolinguistica at yahoogrupos.com.br
Sent: Sunday, August 24, 2008 11:55 AM
Subject: RE: [etnolinguistica] Kuré 'porco' em Tupí-Guaraní


Estimados colegas

El tema del origen de las formas de tipo KVS, KVTS, KVR para 'cerdo, puerco'
(y animales similares) en lenguas aborígenes sudamericanas podría tener más
de una respuesta correcta.

Por una parte, raíces del mencionado tipo (KVS, KVTS, KKVR) podrían ser
onomatopeyas del gruñido de cerdos y animales afines, por lo que cabría la
posibilidad de considerar un posible origen onomatopéyico para algunos de
los términos mencionados en los mensajes precedentes, más algunos otros
como:

- kadiwéu (Griffiths 2002) GatiGa 'caititu',
- chimane (Pérez Diez 2000) ki'ti 'cerdo',
- chipaya (Olson 2000) qiri 'un tipo de cerdo',
- mocoví, toba (Buckwalter & Litwiller de Buckwalter 2004) kos 'cerdo'.

En este último caso, la forma mocoví y toba kos me parece más bien una
onomatopeya que un eventual préstamo del castellano (o del quechua), porque
si éste último fuera el caso se esperaría (normalmente) el mantenimiento de
la vocal final de coche o kuchi. En cambio, el pilagá (Buckwalter &
Litwiller de Buckwalter 2004) ko:'tSi sí es, con toda probabilidad, el
resultado de una transferencia léxica (el alargamiento de la vocal
originariamente acentuada es muy frecuente en préstamos del español a las
lenguas guaicurúes del Sur).

Por otra parte, hay que reconocer que el préstamo del castellano coche a
lenguas indígenas es relativamente antiguo, al menos en algunas zonas. Por
ejemplo, la transferencia del castellano al gününa yajüch (la lengua de los
gününa küne o antiguos puelches de la región pampeana y norte de la
Patagonia; Casamiquela 1983) kutSa 'cerdo' muestra un grado mayor de
nativización que -por citar otro préstamo dentro del mismo campo semántico-
toro 'toro', cf. el reemplazo de la vocal o española por u (o se mantiene en
los préstamos más recientes) y el cambio e > a que se manifiesta en las
palabras tomadas de otras lenguas en fechas más antiguas (por ejemplo,
mapudungun meli  > gününa yajüch ma'lï 'cuatro', frente a préstamos más
recientes como mapudungun teti > gününa yajüch teti 'plomo'). En
consecuencia, gününa yajüch kutSa estaría posiblemente entre los préstamos
más antiguos que esta lengua tomó del español.

Finalmente, me parece también digna de atención la eventual etimología
propuesta por Dietrich para el guaraní kure, cf. el hecho de que la palabra
italiana porco tendría su o tónica cerrada (y no abierta como se esperaría
de su etimología: latín porcus, con o breve) debido a influencia de sporco <
spurcus 'sucio'.


Saludos a todos,

J. Pedro Viegas Barros


Referencias:
Buckwalter, Alberto S. & Lois Litwiller de Buckwalter. 2004. Vocabulario
castellano-guaycurú, Formosa/Elkhart: Equipo Menonita/Mennonite    Missions
Network.

Casamiquela, Rodolfo M. 1983. Nociones de gramática del gününa küne, Paris:
Centre National de la Recherche Scientifique-PUF.

Griffiths, Glyn. 2002. Dicionário da língua Kadiwéu.
Kadiwéu-Português,Português-Kadiwéu. Cuiabá, MT: Summer Institute of
Linguistics.
Pérez Diez, Andrés A. 2000. Chimane WordList, South American Indian
Languages,
Computer Database (Intercontinental Dictionary Series, Vol. 1). General
Editor Mary Ritchie Key. Irvine: University of California. CD-ROM.

Olson, Ronald D. 2000. Chipaya WordList, South American Indian Languages,
Computer Database (Intercontinental Dictionary Series, Vol. 1). General
Editor Mary Ritchie Key. Irvine: University of California. CD-ROM.


Símbolos: G oclusiva uvular sonora, tS africada palatal sorda, ï vocal alta
central, ' oclusiva glotal.

--- Em sáb, 23/8/08, Adelaar, W.F.H. <w.f.h.adelaar at let.leidenuniv.nl>
escreveu:

De: Adelaar, W.F.H. <w.f.h.adelaar at let.leidenuniv.nl>
Assunto: RE: [etnolinguistica] Kuré 'porco' em Tupí-Guaraní
Para: etnolinguistica at yahoogrupos.com.br, etnolinguistica at yahoogrupos.com.br
Data: Sábado, 23 de Agosto de 2008, 15:38


Caro Victor,

A palavra 'coche' para porco aínda se utiliza no espanhol de algumas partes
do norte do Peru e segundo os dicionários também em Nicaragua. Esta palavra
antiga do espanhol parece ser a fonte direita do quechua
'k(h)uchi'. Talvez 'cochino' tenha sido uma derivação de 'coche'. Não sei se
poderia haver uma relação de empréstimo entre o espanhol 'coche' e o guaraní
'kure'?

A situação é semelhante ao caso do gato, representado como 'mis' ou
'mich(i)', também empréstimo do espanhol, em quase todas as línguas
ameríndias com influência espanhola. Parece que nenhuma língua tiver tomado
'gato' como empréstimo.

Abraços,

Willem Adelaar





Van: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br namens Wolf Dietrich
Verzonden: zo 24/08/2008 3:28
Aan: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
Onderwerp: Re: [etnolinguistica] Kuré 'porco' em Tupí-Guaraní


Caro Victor,

A raiz kochi nao existe só no Guaraní Mbya, mas também no Guarani do Chaco
Boliviano (Chiriguano) , onde é kúchi. Mas o termo nao tem nada que ver com
a
pergunta do Eduardo. O espanhol cochino 'porco' entrou no quechua (khuchi) e
aimara (khuchi) e dali no Guarani, como tantas outras palavras. No espanhol
parece ser termo expressivo, como o cochon do Francês, de uma raiz "kuch"
para
chamar os porcos (Corominas, Dic. etim. espanhol e hispánico).

Abraços,

Wolf Dietrich
Muenster - Alemanha

Victor Petrucci schrieb am 2008-08-23:
> Caro Angel

> O termo quichua kuchi lembra bastante o Karitiana koy'cha 'porco do
> mato, taiaçu' e o Guarani Mbya kochi. Dooley não fala nada, mas
> porventura seria empréstimo do espanhol cochino ?

> Indo um pouco mais adiante caimos na especialidade do Eduardo com o
> Macro-Jê Xavante kuhe 'porco doméstico e cateto' (tb. kuku),
> kuhude/kuhod( u) 'anta' e kuhòyä 'porco do mato pequeno' e outros.

> Um termo interessante retorna à questão inicial do Eduardo kurjapuhe
> "porco" no Krenyé do Bacabal, se não estou errado. Como se segmenta
> esse termo? Aí mesmo retorna aos kuch- com o termo para anta kusyü'd.

> Um abraço

> Victor A. Petrucci
> Campinas - Brasil
> ------------ --------- --------- --------- --------- --------- -
> Visite meu site / Visit my site / Visite mi sitio
> http://geocities. com/indianlangua ges_2000
> 530 línguas indígenas / lenguas indígenas / indigenous languages
> 28.000 palavras / palabras / words

> To: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
> CC: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
> From: corbera at uol. com.br
> Date: Sat, 23 Aug 2008 11:31:36 -0300
> Subject: RE: [etnolinguistica] Kuré 'porco' em Tupí-Guaraní

> Contudo, em Kechwa há o termo Kuchi para "porco doméstico". Esse
> termo Kuchi ocorre no léxico de várias línguas indígenas da Amazônia
> Peruana. Sem dúvida introduzida por empréstimo.
> Angel Corbera Mori
> IEL-UNICAMP.

> Os Terena (Aruak) do PI Taunay/Ipegue (MS) também usam "kuré" para
> porco. Certamente uma palavra oriunda do contato com os Mbyá e os
> Guaraní.

> To: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
> From: dietriw at uni- muenster. de
> Date: Sat, 23 Aug 2008 10:48:09 +0200
> Subject: [etnolinguistica] Kuré 'porco' em Tupí-Guaraní

> Prezado Eduardo,

> As minhas consultas produziram o seguinte resultado, provisório até
> agora:
> A palavra "kuré" no sentido de 'porco' tem uma distribuicao muito
> restrita.
> Existe só no Guaraní paraguaio moderno e no Mbyá. Nao figura ainda
> nos
> dicionários de Montoya (1640) e Restivo (1687 e 1722). O primeiro
> testemunho
> de kuré 'porco' encontra-se no "Diccionario gramatical
> Guaraní-Espanhol" de
> Florêncio Vera, Asunción 1903.
> O que se encontra, porém, em todos os dicionários de Montoya, os
> dicionários
> do Tupinambá até as línguas Tupí-Guaraní modernas é a raiz "kurer"
> 'migalhas,
> pedacinhos, resto, sobra'. Montoya diz "Lo gruesso que queda después
> de aver
> cernido la harina". A explicacao semântica poderia ser que o porco é
> aquele
> animal doméstico que come os restos, especialmente os que sobram
> depois da
> trituracao do graos. No Tupinambá temos "coréra" 'aparas de qualquer
> cousa,
> argueiro, farello, farellagem, prgama, rebotalho, restos', na Língua
> Geral
> Amazônica (Tatevin, 1910) "kurera" 'restes, miettes, rebut, marc,
> bagasse', no
> Asuriní do Tocantins (Cabral-Rodrigues 2003), "korét, i-koréra"
> 'resto,
> sobra', no Wayampi (Grenand 1989) "kule" 'morceau, restes', no
> Guarayo
> (Hoeller 1932) "curér" 'triturado', Chiriguano (Dicionário Hable
> Guaraní,
> 1996) "kure" 'chala, afrecho, frangollo menudo, granulada'.

> Um abrac,o,

> Wolf Dietrich

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